O Centro de Língua Portuguesa/Camões em Lublin e a Cátedra de Estudos Portugueses Luís Lindley Cintra da UMCS, para celebrar o 50.º aniversário da Revolução dos Cravos em Portugal, organizaram no dia 11 de junho, na Sala Grande da Faculdade de Filologia, a projeção de um documentário intitulado “Novíssimas Cartas Portuguesas”.
As legendas em polaco foram feitas pelos alunos do 5.º ano de Linguística Aplicada da UMCS.

O ano de 2024 é um ano especial para Portugal. Há 50 anos, no dia 25 de abril de 1974, Portugal começou a dar os primeiros passos rumo à democracia e à liberdade, pondo fim, com a chamada Revolução dos Cravos, ao mais longo regime ditatorial da Europa (1926-1974).

O regime (chefiado por António de Oliveira Salazar) governava o país com mão-de-ferro. Havia censura, tortura, guerra colonial e opressão social. A discriminação das mulheres era generalizada: os seus direitos eram limitados, só podiam votar se fossem casadas e tivessem mais de 35 anos, não tinham independência financeira, pois não podiam abrir uma conta bancária em seu nome, mas sim em nome do marido, não podiam viajar para o estrangeiro sem a autorização do marido, etc. A sexualidade, nomeadamente a sexualidade feminina, era um assunto tabu.

Neste contexto, a poetisa Maria Teresa Horta publicou, em 1971, um livro em que descrevia abertamente o erotismo e o desejo femininos. Como resultado, foi brutalmente espancada por um grupo de homens que a atacaram em frente à sua casa.

O facto não desanimou a poetisa, mas motivou-a ainda mais, bem como às suas amigas, as romancistas Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa (doravante conhecidas como as “Três Marias”), a escrever um livro ainda mais provocador – uma reelaboração de Les Lettres Portugaises, uma compilação de cartas íntimas de uma freira portuguesa publicada em 1669. Esta reelaboração tomou a forma de um livro intitulado. Novas Cartas Portuguesas”, escrito em conjunto pelas três autoras acima referidas e publicado em 1972.

Como era de esperar, os censores do regime atacaram o livro, proibindo a sua publicação e retirando-o de circulação, e os seus autores foram presos e julgados.

No entanto, o livro conseguiu ser introduzido clandestinamente em França e, com a ajuda de Simone de Beauvoir, Marguerite Duras e outras, desencadeou-se uma onda de apoio internacional (protestos nos EUA, França, Inglaterra), expondo assim o tratamento dado às mulheres pela ditadura e chamando a atenção para o que se passava em Portugal. Dois anos depois, a ditadura caiu. O contributo de As Três Marias para este processo foi importante, como salientou o Presidente Macron no seu discurso de felicitação pelo 50.º aniversário da Revolução dos Cravos em Portugal.

Este documentário reflecte sobre o impacto do livro em diferentes gerações de mulheres portuguesas e reflete sobre a sua influência e relevância para diferentes grupos LGBTQ+ e para a sociedade portuguesa em geral.